O hábito de parcelar o pagamento das compras é uma das principais marcas do comportamento de consumo no Brasil, mas a facilidade do clique e a ilusão de que a parcela cabe no bolso têm cobrado um preço alto da saúde financeira das famílias. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise revela que cerca de 60,1 milhões de consumidores residentes nas capitais possuíam compras parceladas em dezembro de 2025. O número representa 37% dos consumidores que carregavam, em média, quatro prestações em aberto no cartão de crédito, no crediário ou em lojas do varejo.
A pesquisa traça um diagnóstico profundo do consumo e do endividamento no país, apontando que, embora tenha havido uma retração defensiva na média de parcelas (que caiu de 5 para 4), a saúde financeira das famílias enfrenta forte pressão decorrente de compras não planejadas e da falta de controle orçamentário prévio.
O estudo revela que a facilidade do crédito tem sido o principal gatilho para o consumo por impulso: 61% dos entrevistados admitem ter realizado compras não planejadas no mês anterior a pesquisa, motivados por essa conveniência. O ecossistema digital é apontado como o maior vilão, com 43% dos consumidores destacando as lojas online e aplicativos como os principais estimuladores desse comportamento, superando as lojas físicas de departamento (30%). Entre as categorias mais adquiridas por impulso figuram vestuário (21%), supermercados (19%), perfumes e cosméticos (17%) e remédios (14%).
Nove em cada dez consumidores (89%) já receberam ofertas de cartão de crédito. A aceitação chega a 41%, motivada principalmente pela necessidade (24%) ou pela isenção de anuidade (11%).
“O crédito no Brasil desempenha um papel fundamental na economia, mas a expansão das plataformas digitais e a facilidade para o consumo por impulso têm funcionado como severas armadilhas para o orçamento doméstico. Percebemos uma clara cultura baseada na ilusão da parcela, em que o cidadão prioriza apenas se o desembolso mensal cabe momentaneamente nas finanças, deixando de lado a avaliação técnica do custo total e dos juros incidentes na operação. Além do planejamento financeiro, uma vez que normalmente não verifica a condição de pagamento real das prestações ao longo dos meses”, destaca o presidente da CNDL, josé César da Costa.
A divisão de papéis entre o PIX e o cartão de crédito
O comportamento de pagamento do brasileiro mostra uma clara divisão estratégica. O PIX consolidou-se como o meio mais utilizado para as transações cotidianas e de menor valor, liderando em serviços de delivery (52%), serviços e salões de beleza (50%), aplicativos de transporte (47%), farmácias (40%), vestuário (36%) e supermercados (30%).
Por outro lado, o cartão de crédito mantém sua soberania nas compras de maior valor agregado (alto ticket), sendo a preferência absoluta em eletroeletrônicos (43%). No campo do parcelamento, o cartão de crédito convencional continua sendo a modalidade favorita de 70% dos consumidores, mas o “PIX Parcelado” já desponta como uma força emergente em segundo lugar, com 13% de preferência, superando o tradicional crediário/carnê (5%).
Inadimplência, Gestão e a “Ilusão da Parcela”
O levantamento expõe um cenário crítico no que tange à educação financeira. Quase metade dos consumidores (47%) não realiza qualquer tipo de controle prévio de seus gastos, limitando-se a reagir à fatura quando ela chega. Entre os 45% que declaram monitorar o orçamento, o papel e a agenda ainda superam as ferramentas tecnológicas, sendo utilizados por 20% dos respondentes, contra 14% que usam planilhas digitais e 10% que utilizam aplicativos de finanças.
Essa falta de planejamento técnico reflete-se na chamada “ilusão da parcela”: embora 77% analisem as taxas antes de contratar um crédito (focando em juros e tarifas), 15% ignoram completamente esses custos, sendo que 8% preocupam-se apenas se o valor mensal cabe no bolso, desconsiderando o custo total final da operação. O valor da prestação dita a regra na decisão de uso do crédito: a busca por parcelas pequenas (25%) e a sensação de caber no orçamento (19%) são os maiores motivadores.
Como consequência direta, 38% dos consumidores ficaram com o “nome sujo” nos últimos 12 meses devido à inadimplência em parcelamentos, com o cartão de crédito figurando como o maior responsável pelas negativações (23%), seguido por empréstimos (12%). Atualmente, o estoque de dívidas em atraso já compromete entre um quarto e três quartos de toda a renda mensal para 31% dos entrevistados.
Movimento de cautela nas compras e alta inadimplência
Apesar de o otimismo de curto prazo ser elevado — 79% acreditam que terão condições de quitar suas parcelas nos próximos três meses —, a realidade impôs um recuo defensivo. O estudo aponta que 56% dos consumidores evitaram ativamente realizar novas compras a prazo nos três meses anteriores da pesquisa para evitar o colapso do orçamento doméstico. O principal motivo para essa restrição é o excesso de compromissos financeiros já assumidos (50%), seguido pelo medo de perder o controle orçamentário (39%) e pela situação de inadimplência atual (22%).
“O acesso ao crédito sem o devido planejamento prévio tem cobrado um preço alto, resultando no superendividamento e na negativação de uma parcela expressiva da população. Embora o comércio e os novos meios de pagamento digitais tragam dinamismo, o fortalecimento da educação financeira e a necessidade de o país ter um cenário de juros mais baixos, precisam avançar no mesmo ritmo da tecnologia, tornando-se urgente para que o consumidor recupere sua capacidade de poupança e sua subsistência com equilíbrio.”, alerta o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro.